Por muito tempo, vencer foi a minha forma de não voltar para trás
Eu achava que buscava sucesso. Parte de mim ainda tentava provar que não seria para sempre o menino que tinha menos.

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Tem uma coisa sobre ambição que a gente nem sempre consegue enxergar enquanto está correndo: nem toda vontade de vencer nasce no futuro. Algumas começam muito cedo, tentando consertar uma história antiga.
Minha infância não foi fácil. Meu pai foi ausente e tinha problemas com álcool e drogas. Minha mãe precisou segurar muita coisa praticamente sozinha. Cuidava de mim, do meu irmão, da minha avó e da minha tia-avó. Minha avó havia ficado cega por causa da diabetes e também sofria com depressão.
Era muita coisa nas costas dela.
O menino que tinha menos
Minha mãe trabalhava muito para nos colocar em lugares bons e oferecer a melhor vida que conseguia. Ainda assim, a gente vivia meio endividado. Em muitos ambientes, eu e meu irmão éramos os que tinham menos.
Era perceber que os amigos usavam um tênis caro enquanto o nosso vinha da loja mais barata. Não conto isso para dramatizar a infância nem diminuir o esforço enorme da minha mãe. Conto porque acredito que essa comparação criou alguma coisa dentro de mim.
Eu queria provar que também era capaz. Queria mostrar que podia vencer e que não seria para sempre aquele menino que tinha menos do que os outros.
Na minha cabeça, vencer tinha uma aparência muito concreta: ganhar dinheiro, ter um cargo importante, ser respeitado profissionalmente e chegar numa sala como a pessoa que comandava.
A ambição também protege
Durante anos, pensei nessa vontade apenas como determinação. E ela foi. Trabalhei, cresci, aprendi e construí uma carreira da qual tenho orgulho.
Mas hoje consigo enxergar outra camada. A ambição também era uma forma de proteção. Se eu ganhasse o suficiente, tivesse autoridade e fosse reconhecido, talvez nunca mais precisasse sentir aquela insegurança.
O problema é que uma meta construída para acalmar um medo raramente sabe dizer quando chegou. Sempre existe mais dinheiro, mais reconhecimento, mais responsabilidade e uma nova forma de comparação.
Você cresce por fora e continua tentando convencer uma versão antiga de si mesmo de que agora está tudo bem.
O que eu realmente buscava
Eu queria ter orgulho de mim. Só achava que esse orgulho viria exclusivamente da carreira.
Quando alcancei o cargo que desejava, percebi que a sensação não chegou junto. Houve satisfação, claro, mas nenhuma transformação interna. O trabalho continuou, as cobranças aumentaram e o medo de perder o que eu havia conquistado também cresceu.
Demorei para entender que eu estava pedindo a um cargo algo que ele nunca prometeu entregar.
Dinheiro pode trazer segurança. Trabalho pode gerar dignidade, autonomia e realização. Reconhecimento pode confirmar que fizemos algo bem. Nenhuma dessas coisas, sozinha, resolve a relação que temos com a própria história.
Não quero apagar quem me trouxe até aqui
Não tenho interesse em brigar com a minha versão mais ambiciosa. Ela fez o que sabia fazer. Ajudou a tirar muita coisa do lugar, abriu caminhos e protegeu minha família.
O que quero, aos 41, é impedir que ela continue dirigindo tudo sem perceber que a vida mudou.
Hoje, vencer também é estar perto das pessoas que amo, cuidar da saúde e construir algo próprio sem transformar cada dia numa prova de valor. É poder querer mais sem tratar o presente como uma sala de espera.
Talvez amadurecer não seja abandonar a ambição. Seja descobrir de onde ela vem e decidir para onde ela vai.
O menino que tinha menos ainda faz parte de mim. Só não precisa mais passar a vida inteira tentando provar que merece estar na sala.
Imagem produzida com IA usando uma foto minha como referência. A memória narrada aqui é real.
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